{"id":5257,"date":"2020-05-11T11:25:18","date_gmt":"2020-05-11T14:25:18","guid":{"rendered":"http:\/\/torredebabel.com.br\/site\/?p=5257"},"modified":"2020-05-11T11:25:24","modified_gmt":"2020-05-11T14:25:24","slug":"a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/","title":{"rendered":"A INFLU\u00caNCIA AFRICANA NA L\u00cdNGUA PORTUGUESA"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" width=\"222\" height=\"213\" src=\"http:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/pai\u0301ses-africanos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5258\" srcset=\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/pai\u0301ses-africanos.jpg 222w, https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/pai\u0301ses-africanos-221x212.jpg 221w\" sizes=\"(max-width: 222px) 100vw, 222px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><strong>Comemorou-se no passado dia 5 de maio, pela primeira vez, o Dia Mundial da L\u00edngua Portuguesa, data institu\u00edda pela UNESCO, como reconhecimento da import\u00e2ncia geopol\u00edtica desse idioma \u201cneto do latim e filho do galego\u201d, hoje falado por cerca de 280 milh\u00f5es de pessoas espalhadas por todos os continentes, algumas delas em cinco pa\u00edses africanos.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A prop\u00f3sito da efem\u00e9ride, abordarei a seguir um aspeto pouco aflorado e de certo modo ignorado, inclusive, pelos usu\u00e1rios africanos, cada vez mais numerosos, da nossa l\u00edngua comum: a influ\u00eancia africana na l\u00edngua portuguesa. Devido \u00e0 natureza e ao espa\u00e7o dispon\u00edvel para este texto, trata-se apenas, naturalmente, de breves notas. Talvez os especialistas na mat\u00e9ria possam, um dia, estudar este assunto com mais conhecimento e profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como aludi num poema que escrevi em 2009 e que o DN publicou no j\u00e1 referido Dia Mundial da L\u00edngua Portuguesa, esta \u00e9 influenciada pelas l\u00ednguas bantas africanas, particularmente angolanas (com destaque para o kimbundu, o kikongo e o umbundu), h\u00e1 muitos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 mais vis\u00edvel na variante brasileira da l\u00edngua portuguesa, o que a hist\u00f3ria, mais concretamente o tr\u00e1fico de escravos, explica. Os angolanos n\u00e3o s\u00f3 foram os primeiros africanos a ser levados para o Brasil como escravos como foram os mais numerosos. Por isso, e fora, parcialmente, a religiosidade de origem africana \u2013 onde os tra\u00e7os dos povos do golfo da Guin\u00e9 s\u00e3o mais vis\u00edveis -, a cultura brasileira \u00e9 profundamente devedora da cultura angolana. Leia-se a obra fundamental&nbsp;<em>O Trato dos Viventes<\/em>, do historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, para aprend\u00ea-lo de vez.<\/p>\n\n\n\n<p>A influ\u00eancia das l\u00ednguas africanas de Angola no idioma portugu\u00eas \u00e9, desde logo, de natureza lexical. Centenas de palavras origin\u00e1rias das referidas l\u00ednguas foram incorporadas pela l\u00edngua portuguesa, como, s\u00f3 para dar meia d\u00fazia de exemplos, quitanda, quizomba, quitute, cafun\u00e9, muamba, carimbo e a celeb\u00e9rrima bunda. O Museu da L\u00edngua Portuguesa em S\u00e3o Paulo (no meio da pandemia pol\u00edtica que parece grassar no Brasil, ainda existir\u00e1 tal museu?) tem uma sec\u00e7\u00e3o apenas sobre essa heran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Contemporaneamente, e numa esp\u00e9cie de segunda vaga dessa influ\u00eancia, v\u00e1rias palavras e express\u00f5es da g\u00edria angolana, em especial luandense \u2013 como kota (os portugueses escrevem cota), garina, bazar, malaico e outras -, foram igualmente incorporadas por todos os falantes da l\u00edngua. O \u201cvazar\u201d dos paulistas e logo espalhado por todo o Brasil pode ter tido origem no angolan\u00edssimo \u201cbazar\u201d, que, como se sabe, significa ir, ir embora, sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessa influ\u00eancia lexical, as l\u00ednguas angolanas de origem banta tamb\u00e9m influenciaram de maneira clara e, digamos assim, \u201cperfeitamente aud\u00edvel\u201d a variante brasileira do portugu\u00eas, em termos de pron\u00fancia, da abertura das vogais \u00e0 pr\u00f3pria tend\u00eancia para a vogaliza\u00e7\u00e3o, que consiste em colocar sempre uma vogal entre duas consoantes (por exemplo, \u201cpineu\u201d em vez de \u201cpneu\u201d), assim como para omitir o \u201cs\u201d no plural (as l\u00ednguas bantas tamb\u00e9m n\u00e3o usam \u201cs\u201d para o fazerem). Os dois \u00faltimos casos s\u00e3o percet\u00edveis, sobretudo, na linguagem oral.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, podem ser identificadas influ\u00eancias das l\u00ednguas africanas na estrutura do portugu\u00eas falado e escrito no Brasil. O exemplo mais comum ser\u00e1, talvez, a forma de conjuga\u00e7\u00e3o dos verbos reflexos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre o portugu\u00eas e as l\u00ednguas africanas, \u00e9 mister igualmente destacar o papel das literaturas africanas (como, desde muito antes, o da literatura brasileira) na expans\u00e3o, no rejuvenescimento e na recria\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa. Mia Couto \u00e9, nos dias de hoje, o nome que primeiro vem \u00e0 lembran\u00e7a. Mas, a rigor, \u00e9 imperioso convocar e lembrar, sobretudo aos mais novos, aquele que foi realmente revolucion\u00e1rio e fundante: Jos\u00e9 Luandino Vieira.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo, aqui, a c\u00e9lebre frase de Am\u00edlcar Cabral: \u201cA l\u00edngua portuguesa \u00e9 uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram.\u201d Foi, precisamente, por terem-no reconhecido, que os povos das antigas col\u00f3nias africanas de Portugal fizeram do portugu\u00eas, como me disse Luandino uma vez em conversa, um \u201ctrof\u00e9u de guerra\u201d, transformando-o num instrumento n\u00e3o apenas da sua liberta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m da sua unidade interna, uma vez conquistadas as independ\u00eancias, e bem assim o seu primeiro ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua portuguesa foi devidamente nacionalizada pelos nossos povos, tal como, antes, j\u00e1 hav\u00edamos nacionalizado a mandioca ou o milho e, hoje, o fato e gravata, o computador e o&nbsp;<em>smartphone<\/em>. Por isso, ajudamo-la a construir-se, a reinventar-se e a expandir-se todos os dias, desde \u2013 repito \u2013 h\u00e1 s\u00e9culos. Para dar um exemplo atual, os pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa fizeram mais pela expans\u00e3o do portugu\u00eas em menos de 50 anos do que a antiga pot\u00eancia colonizadora em 500 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A concluir, n\u00e3o posso deixar de observar que a crescente expans\u00e3o da nossa l\u00edngua comum deve-se igualmente \u00e0 sua natureza. Para resumir, direi que a mesma \u00e9 suficientemente pl\u00e1stica para absorver todas as influ\u00eancias, recriando-se, rejuvenescendo-se e modernizando-se permanentemente, sem p\u00f4r em causa a sua estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu disse \u201cestrutura\u201d e n\u00e3o simples conven\u00e7\u00e3o, como a grafia. Isso \u00e9 maka para outro texto.<\/p>\n\n\n\n<h5 id=\"centro1\">Fonte:\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.dn.pt\/edicao-do-dia\/09-mai-2020\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa-12167573.html\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio de Not\u00edcia<\/a><br>Fonte da imagem: In\u00e9pcia<\/h5>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comemorou-se no passado dia 5 de maio, pela primeira vez, o Dia Mundial da L\u00edngua Portuguesa, data institu\u00edda pela UNESCO, como reconhecimento da import\u00e2ncia geopol\u00edtica desse idioma \u201cneto do latim e filho do galego\u201d, hoje falado por cerca de 280 milh\u00f5es de pessoas espalhadas por todos os continentes, algumas delas em cinco pa\u00edses africanos. A [&hellip;]<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5258,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[72,67,117],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v15.1.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A INFLU\u00caNCIA AFRICANA NA L\u00cdNGUA PORTUGUESA - Torre de Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A INFLU\u00caNCIA AFRICANA NA L\u00cdNGUA PORTUGUESA - Torre de Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Comemorou-se no passado dia 5 de maio, pela primeira vez, o Dia Mundial da L\u00edngua Portuguesa, data institu\u00edda pela UNESCO, como reconhecimento da import\u00e2ncia geopol\u00edtica desse idioma \u201cneto do latim e filho do galego\u201d, hoje falado por cerca de 280 milh\u00f5es de pessoas espalhadas por todos os continentes, algumas delas em cinco pa\u00edses africanos. A [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Torre de Babel\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/TorreDeBabelIdiomas\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-05-11T14:25:18+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-05-11T14:25:24+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/pai\u0301ses-africanos-221x212.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"222\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"213\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/#website\",\"url\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/\",\"name\":\"Torre de Babel\",\"description\":\"Idiomas e Culturas\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/?s={search_term_string}\",\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"ImageObject\",\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/#primaryimage\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"url\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/pai\\u0301ses-africanos-221x212.jpg\",\"width\":222,\"height\":213},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/#webpage\",\"url\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/\",\"name\":\"A INFLU\\u00caNCIA AFRICANA NA L\\u00cdNGUA PORTUGUESA - Torre de Babel\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/#primaryimage\"},\"datePublished\":\"2020-05-11T14:25:18+00:00\",\"dateModified\":\"2020-05-11T14:25:24+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/#\/schema\/person\/00a1c66a4309513c9505530d76bfc17a\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/a-influencia-africana-na-lingua-portuguesa\/\"]}]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/#\/schema\/person\/00a1c66a4309513c9505530d76bfc17a\",\"name\":\"torredebabel\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"@id\":\"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/#personlogo\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/da4364b8ecd448d6db1e37b96c8c4c3d?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"torredebabel\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5257"}],"collection":[{"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5257"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5257\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5259,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5257\/revisions\/5259"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5258"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/torredebabel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}